A ideia pode ser genial, o mercado pode até estar pronto para ela e ainda assim o produto quebra na mão do usuário, porque o problema nunca esteve no conceito. Estava em decisões de design que ninguém questionou a tempo.

Existe uma crença confortável em times de produto e marketing de que ideia forte, se bem executada tecnicamente, se converte naturalmente em sucesso comercial. A realidade contraria essa crença com frequência incômoda. Boa parte dos fracassos mais estudados no mercado não nasceu de conceito ruim, nasceu de decisão de design que parecia pequena no momento em que foi tomada e se revelou determinante depois que o produto chegou às mãos de quem realmente ia usá-lo.

Design, nesse contexto, não significa apenas estética de interface ou acabamento visual. Significa a soma de decisões que determinam como um produto se comporta diante do comportamento real de quem o utiliza, sob pressão de tempo, contexto adverso ou expectativa que o próprio mercado já formou antes mesmo do lançamento. E são exatamente essas decisões, silenciosas e aparentemente técnicas, que separam produto que vira referência de produto que vira estudo de caso de fracasso.

Apple admite (silenciosamente) que fracassou ao tentar inovar no teclado do MacBook

Primeiro erro: substituir controle físico por tela em situação que exige resposta imediata

Um dos erros de design mais discutidos atualmente na indústria automotiva ilustra esse ponto com clareza rara. Fabricantes de veículos elétricos migraram, nos últimos anos, funções essenciais como pisca-alerta, limpador de para-brisa e buzina para dentro de telas sensíveis ao toque, substituindo controle físico por comando digital em nome de estética minimalista e redução de custo de produção. O problema é que essas funções específicas exigem resposta imediata, em contexto de atenção dividida com direção, e menu de tela exige exatamente o tipo de atenção visual que esse cenário não permite conceder com segurança.

A resposta do próprio setor regulatório confirma a gravidade do erro: a partir de 2026, a Euro NCAP, entidade responsável pela avaliação de segurança veicular na Europa, passou a exigir controle físico dedicado para funções críticas de segurança como sinalização, luz de emergência e chamada de socorro, sob pena de o veículo perder pontuação na nota máxima de segurança, mesmo com toda a sofisticação tecnológica do painel digital. O aprendizado que fica para qualquer produto, dentro ou fora do setor automotivo, é direto: em qualquer contexto onde resposta imediata e previsível é condição de segurança ou de confiança, substituir interface física testada por interface digital elegante, mas mais lenta de operar sob pressão, é decisão de design que carrega risco desproporcional ao ganho estético que ela entrega.

Segundo erro: resolver, com complexidade cara, um problema que já tinha solução simples e barata

O segundo erro recorrente é de natureza quase oposta ao primeiro: em vez de simplificar demais uma função crítica, o produto complica demais uma necessidade que já era resolvida de forma simples. O exemplo mais lembrado desse tipo de deslize é o de uma startup que desenvolveu uma máquina sofisticada, cara e conectada à internet, cuja única função era espremer sachês de suco previamente embalados, tarefa que qualquer pessoa conseguia realizar apertando o sachê diretamente com as próprias mãos, sem qualquer equipamento. A empresa havia levantado investimento relevante, construído engenharia impressionante e ainda assim entregou um produto cuja complexidade não correspondia a nenhuma dor real que o mercado estivesse disposto a pagar para resolver.

Esse tipo de erro nasce quando a equipe de produto se apaixona pela sofisticação da própria solução antes de validar, com rigor, se aquele nível de engenharia resolve um problema que o usuário realmente sente como problema. Design bem-feito não é sinônimo de design complexo. É sinônimo de design proporcional à real necessidade que está sendo resolvida, e ignorar essa proporção é receita quase garantida para produto tecnicamente impressionante, mas comercialmente irrelevante.

Terceiro erro: tratar o momento mais decisivo da jornada como etapa secundária de design

O terceiro erro mais recorrente, especialmente em produtos digitais e comércio eletrônico, é dedicar atenção de design desproporcionalmente menor exatamente ao momento em que a decisão de compra é finalizada. Dados consolidados pelo Baymard Institute, referência internacional em pesquisa de usabilidade de checkout, mostram que a taxa média de abandono de carrinho em compras online ultrapassa 70%, e que quase um quinto desses abandonos acontece especificamente por processo de finalização considerado longo ou complicado demais pelo próprio consumidor, ainda que a intenção de compra já estivesse formada até aquele ponto.

O padrão revelado por esse tipo de dado é revelador: times de produto costumam investir volume enorme de esforço de design nas etapas de descoberta e navegação, tratando checkout como formulário técnico que só precisa funcionar, não como experiência que precisa ser desenhada com o mesmo cuidado estratégico do restante da jornada. Esse desequilíbrio de prioridade é, na prática, dinheiro literalmente perdido no último metro da experiência, e corrigir esse erro exige tratar o momento de conversão como superfície de design tão relevante quanto qualquer tela de vitrine do produto.

O caso do “Botão de 300 Milhões de Dólares” (o maior clássico de UX)

Quarto erro: construir para uma parcela do público e excluir o restante sem perceber

O quarto erro, talvez o mais silencioso de todos porque raramente aparece em métrica de conversão até que já tenha causado dano reputacional relevante, é o de ignorar acessibilidade como parte estrutural do design, e não como camada opcional adicionada depois que o produto já está pronto. O relatório WebAIM Million, que avalia anualmente a acessibilidade de um milhão dos sites mais visitados do mundo, encontrou em sua edição mais recente que 95,9% das páginas iniciais analisadas apresentavam falhas detectáveis de acessibilidade, com média superior a cinquenta e seis erros por página, número que voltou a crescer depois de anos de melhora gradual.

Esse tipo de falha não é apenas questão de responsabilidade social abstrata, é falha de design que exclui, de forma sistemática, uma parcela relevante e crescente do próprio mercado consumidor, além de gerar exposição jurídica crescente, com aumento expressivo no número de ações judiciais relacionadas a acessibilidade digital registradas nos últimos anos. Produto que não foi desenhado considerando diferentes formas de interação, visual, motora ou cognitiva, não é apenas produto tecnicamente incompleto. É produto que fecha a própria porta de entrada para uma fatia de público que, cada vez mais, este mesmo produto poderia e deveria estar servindo.

Veredito: bom design não evita risco, ele decide qual risco vale a pena correr

Por aqui na CH, um princípio orienta como avaliamos qualquer decisão de design antes de validar entrega para o mercado: nenhuma dessas quatro falhas nasce de falta de talento técnico ou de má intenção da equipe envolvida. Nascem de decisão tomada sem testar, com rigor, como o produto real vai se comportar na mão de quem realmente vai usá-lo, sob a pressão real do contexto em que ele será usado, não apenas sob a validação confortável do ambiente controlado de desenvolvimento.

Produto bom, para se manter bom depois do lançamento, precisa de design que resista à realidade, não apenas ao teste interno. E é justamente essa resistência à realidade, construída com decisão testada e validada cedo, que separa marca que se torna referência de marca que vira, sem perceber, o próximo estudo de caso de erro que o mercado vai usar como exemplo do que evitar.