Quanto mais tempo passamos nas telas, mais intensamente desejamos o que elas não conseguem entregar e o design de marca entendeu isso antes do mercado
Existe um paradoxo silencioso operando no centro do comportamento de consumo contemporâneo: nunca passamos tanto tempo em telas, e nunca desejamos tão intensamente o que elas não conseguem entregar. O toque de um material maleável. O peso de um objeto bem acabado. A textura irregular de algo que parece feito à mão. A vibração quase imperceptível que confirma uma ação. Enquanto a infraestrutura digital ficou mais rápida, mais plana e mais lisa, o desejo do consumidor foi na direção oposta, em busca de profundidade, aspereza, sensação. Em busca, no fundo, de corpo.
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O design de marca foi um dos primeiros territórios a captar esse movimento e não por acidente. O design sempre operou como um sistema de leitura do que as pessoas precisam sentir em determinado momento histórico. E o que 2026 está revelando, com uma clareza que vai além das tendências visuais pontuais, é que estamos em um ciclo de reação ao excesso de estímulo visual polido: as pessoas querem ser transportadas, imersas, tocadas. Querem que a experiência de uma marca deixe uma impressão que o scroll não apaga.

Cansaço de tela como motor cultural e de consumo
Para entender por que o design sensorial se consolidou como um dos movimentos mais expressivos de 2026, é necessário nomear o contexto que o gerou. O tempo médio de uso de tela entre adultos no mundo inteiro ultrapassou sete horas diárias. Celulares, consoles, notebooks, wearables: o ambiente digital não é mais um lugar onde se vai é o lugar onde se está, quase ininterruptamente. E como qualquer estímulo em excesso, ele produz dessensibilização. Uma superfície infinitamente deslizável, plana e iluminada começa a perder capacidade de gerar impressão. O consumidor não está enjoado do digital. Está enjoado da versão polida, genérica e tátil-zero do digital.
A resposta a esse cansaço não é a rejeição das telas, é a busca por experiências que compensem o que elas não entregam. É por isso que a demanda por textura, por peso, por som e por movimento intencionais está crescendo simultaneamente em categorias aparentemente díspares: no design de embalagem, no design de interface, na moda, nos brinquedos colecionáveis, na comunicação de marca. O denominador comum não é estético. É psicológico: o que consegue criar uma impressão sensorial real, seja no corpo ou na memória, tem uma capacidade de engajamento que o conteúdo visual plano simplesmente não alcança.
A psicóloga de moda Jennifer Heinen sintetizou esse comportamento ao analisar a explosão dos colecionáveis táteis: objetos pequenos, macios e whimsical permitem que as pessoas se ancorem em algo controlável e emocionalmente não-ameaçador. Em um nível mais profundo, eles refletem o desejo de reconectar com texturas emocionais que a vida adulta frequentemente suprime, como ternura, maravilhamento, curiosidade. O design sensorial não é uma tendência de forma. É uma resposta de conteúdo emocional.

A ‘toyificação’ do consumo: o que Labubu, NeeDoh e JW Anderson têm em comum
O movimento de design mais ilustrativo desse contexto não veio dos grandes estúdios de identidade visual. Veio de uma boneca com dentes afiados e proporções de bebê vendida em caixa cega por uma empresa chinesa chamada Pop Mart. O Labubu, criação do ilustrador hongkonguês Kasing Lung e lançado como colecionável em 2019, se tornou um fenômeno global que em 2025 gerou mais de quatro bilhões de dólares em receita para a Pop Mart, superando em valor de mercado marcas como Mattel e Hasbro. A Pop Mart, como empresa, chegou a quarenta e quatro bilhões de dólares em valor de mercado no período. A economia “soothing” dos colecionáveis peludos, da qual o Jellycat também é protagonista, movimenta vinte e três bilhões de dólares globalmente. Esses não são números de nicho.
O que está sendo vendido, em todos esses casos, não é o objeto em si. É a experiência tátil e emocional que ele proporciona. O Labubu combina em seu design dois impulsos aparentemente contraditórios: características predatórias (dentes afiados, pupilas verticais) com proporções infantis que ativam instintos de proteção. Essa tensão entre o levemente perturbador e o adorável é deliberada, e é exatamente o que o torna memorizável, fotografável e colecionável.

O NeeDoh, a mais recente febre em sensory toys, vai numa direção mais pura ainda: nada além de textura maleável e satisfação de apertar. Sem narrativa, sem IP complexo. Apenas a experiência física de ter algo que cede ao toque de forma perfeitamente calculada.
Esse movimento, batizado de ‘toyificação’ por internautas, migrou para a moda com velocidade. A JW Anderson lançou clutches em formato de pombo hiper-realista e de fatia de bolo, com acabamento tridimensional que confunde material e representação. A Gentle Monster, marca de óculos de luxo coreana, colaborou tanto com a Bratz quanto com Tilda Swinton em campanhas que misturam arte performática, design de produto e estética de brinquedo, dissolvendo qualquer linha entre moda, brinquedo e objeto de arte. A Poppi, marca de refrigerante “better-for-you” americana, não se limitou a postar memes sobre Labubu nas redes sociais. Criou latas com acabamento que imita textura de brinquedo de pelúcia e key charms colecionáveis, inserindo-se autenticamente na cultura tátil do seu público. A FIFA fechou parceria com a Pop Mart para lançar uma coleção Labubu especial para a Copa do Mundo 2026, um sinal inequívoco de que esse território cruzou todos os limites de nicho e se estabeleceu como linguagem de cultura pop mainstream.
A lógica estratégica por trás dessas decisões é mais precisa do que parece à primeira vista. Introduzir texturas apertáveis, objetos “groomáveis” ou elementos de surpresa (blind box) em uma estratégia de marca não é apenas uma jogada de tendência. É criar um ponto de interação física que gera o tipo de memória sensorial que o conteúdo digital raramente produz e que, uma vez criado, funciona como ancoragem emocional para a marca de forma desproporcional ao investimento.
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O digital que imita o tátil: como a textura migrou para o design de identidade visual
A resposta do design gráfico digital a esse contexto não foi ignorar o movimento tátil, foi encontrar sua versão dentro das limitações da tela. E o resultado é uma das viradas estéticas mais significativas dos últimos anos: a retexturização do design digital, que passou mais de uma década sendo pressionado em direção ao plano, ao liso, ao mínimo, e que agora está incorporando grain, imperfeições, referências a scans e xerox, layouts de zine, colagem e acabamentos que imitam o que existe fora da tela.
Texturas vítreas, translúcidas, cerosas e hiper-realistas estão dominando o design de identidade em 2026, criando profundidade e presença física em superfícies que são, por definição, bidimensionais. Não é nostalgia pelo analógico. É a construção deliberada de uma impressão sensorial dentro de um ambiente que não tem corpo, usando simulação tátil como estratégia de diferenciação em um feed onde a maioria dos conteúdos ainda aspira à lisura perfeita. Uma identidade com grain visível e textura imperfeita se destaca em um scroll de imagens polidas exatamente porque ativa circuitos de reconhecimento diferentes: a imperfeição sinaliza artesanalidade, autenticidade, presença humana.
O The Branding Journal, em sua análise das tendências de design para 2026, articulou esse movimento com precisão: em 2026, o design não é apenas sobre como as coisas parecem, mas sobre como elas poderiam ser sentidas. Marcas querem ser sentidas, não apenas vistas. Logos e sistemas visuais estão se afastando da rigidez e passando a se adaptar, mover e responder a contextos, telas e ambientes distintos. A textura, dentro desse sistema, não é um detalhe de acabamento. É um argumento de identidade.
A assinatura sensorial: quando marca vai além do visual
O passo mais sofisticado e ainda subestimado desse movimento, está na construção do que especialistas em identidade de marca estão chamando de assinatura sensorial: o conjunto de expressões sensoriais consistentes de uma marca que vão além do logotipo, da paleta e da tipografia, incorporando som, movimento, vibração e até experiências olfativas e táteis físicas em pontos de contato selecionados.
O háptico, o toque deliberado entregue por dispositivos móveis através de vibrações precisas, está deixando de ser um detalhe técnico de UX para se tornar um canal de comunicação de marca. Marcas que definem como o feedback tátil do seu app confirma uma compra, marca uma conquista ou sinaliza um erro estão construindo uma camada de identidade que o usuário experimenta com o corpo, não apenas com os olhos.
A diferença entre um pulso genérico e um pulso com ritmo, intensidade e timing precisamente calibrados para a personalidade de uma marca é a mesma diferença entre uma fonte genérica e uma tipografia proprietária: invisível para quem não presta atenção, mas definitiva na construção de reconhecimento para quem vive a experiência com frequência.
O mesmo vale para o design sonoro de marca, território que cresceu exponencialmente nos últimos anos, mas que ainda é tratado por muitas empresas como produção de jingle, não como decisão de identidade. A Mastercard não criou sua identidade sonora apenas para ter um som de confirmação de pagamento. Criou um sistema de composição baseado em identidade que é consistente em mais de dezoito países e pode ser adaptado para diferentes contextos mantendo reconhecimento. A Intel tem seu iconic sound mark há décadas, quatro notas que valem mais em reconhecimento de marca do que a maioria dos logotipos do mundo. Em 2026, esse tipo de investimento não é mais exclusivo de empresas com orçamentos globais. Ferramentas de composição generativa tornaram o design sonoro acessível em escalas que não existiam há três anos.
A síntese dessa discussão está em uma afirmação que a agência sueca Louder colocou no centro de sua análise sobre identidade de marca em 2026: uma marca que existe apenas na tela é uma marca inacabada. As identidades mais fortes de 2026 definem como soam, vibram e se movem e traduzem isso consistentemente para cada ponto de contato.
Hiper-realismo com distorção lúdica: a estética do objeto impossível
Um dos territórios mais interessantes do design sensorial contemporâneo é aquele que não se limita a imitar o tátil, mas que usa o hiper-realismo como ponto de partida para uma distorção que só existe no design: o objeto que parece absolutamente real, mas que é também impossível. O clutch-pombo da JW Anderson existe nesse território. As latas-brinquedo da Poppi também. O Labubu, com seus dentes afiados e olhos grandes, é um hiper-realismo de criaturas que não existem.
Essa combinação de material que simula com perfeição fotorrealista uma textura, combinada com uma forma ou proporção que subverte a realidade, cria uma tensão visual e sensorial que é extremamente eficaz em termos de memória e compartilhamento. O cérebro humano presta mais atenção ao que viola sutilmente suas expectativas do que ao que as confirma. Um objeto que parece exatamente como deveria parecer é esquecido. Um objeto que parece exatamente como um objeto real mas é também ligeiramente errado como grande demais, pequeno demais, maleável onde deveria ser rígido, realista onde deveria ser cartoon, isso cria uma dissonância cognitiva que gera fascínio e engajamento.
Do ponto de vista de branding, esse princípio é valioso além do design de produto. Uma identidade visual que usa hiper-realismo de textura combinado com proporções ou comportamentos que subvertem o esperado, um logo que escorrega em vez de ficar fixo, uma tipografia com acabamento de veludo que aparece em uma interface totalmente digital, uma paleta de cores com a profundidade de material físico em uma superfície plana, usa a mesma lógica para criar atenção e memorabilidade que os melhores objetos táteis do mercado atual criam no espaço físico.

Veredito: sentir é a nova ver e as marcas que entenderem isso primeiro chegam na frente
Aqui na CH, lemos o movimento do design sensorial não como uma tendência estética de ciclo curto, mas como uma resposta estrutural ao ambiente de atenção em que as marcas operam hoje. Quando toda superfície disponível está competindo por olhos, a marca que consegue tocar (metafórica ou literalmente) sai do plano da visão e entra no plano da experiência. E experiência cria memória de uma forma que a impressão visual raramente consegue replicar.
O que aconteceu com Labubu, com a textura digital grain, com a háptica de marca e com o design sonoro não são tendências isoladas. São expressões diferentes de um mesmo argumento: o consumidor de 2026 quer ser transportado, não apenas informado. Quer sentir que a marca existe além da tela que tem corpo, ritmo, temperatura, caráter. Essa é uma demanda de branding, não de produto. E ela começa no design.
A marca que responder a essa demanda com coerência, definindo como ela soa, como ela toca, como ela se move, e não apenas como ela parece, estará construindo um sistema de identidade muito mais difícil de copiar do que qualquer paleta de cores ou logotipo. Porque sistemas sensoriais completos são, por natureza, mais complexos de replicar do que formas visuais. E complexidade de replicação é, no fundo, um dos melhores sinônimos de vantagem competitiva que o design pode oferecer.





