Em um mundo inundado por conteúdos gerados por IA, surge uma reação: designers e criativos articulam uma nova ética visual que valoriza curadoria, autoria e profundidade conceitual

Seja em redes sociais, portfólios ou feeds de marcas, é cada vez mais comum ver um padrão visual homogêneo, um repertório estilístico reciclado de prompts e um senso estético “repetível”.

Esse fenômeno, que muitos no meio criativo chamam de “IA slop” (uma enxurrada de arte e design gerados por IA sem profundidade ou autoria) é o centro de um movimento de resistência liderado por designers, artistas e estrategistas visuais.

IA slop ilustrada por Zohar Lazar para a New York Magazine

IA slop: o que é e por que importa

“IA slop” é uma expressão usada para descrever o resultado genérico, sem personalidade nem conceituação, produzido quando se depende excessivamente de ferramentas generativas sem reflexão crítica. Em vez de serem expressões originais, as peças se tornam variações previsíveis de padrões aprendidos pelos modelos.

Esse excesso tem consequências práticas e estratégicas para marcas:

→ Dilui a identidade visual;

→ Reduz a diferenciação competitiva;

→ Promove aceitação de mediocridade estética;

→ Confunde consumidores e algoritmos;

→ Transforma posicionamento em ruído.

Como apontam designers no Instagram e em plataformas especializadas, o problema não é a IA em si, é o uso sem curadoria, conceito ou autoria.

O movimento anti-slop: autenticidade como resistência

Ao redor do mundo (e especialmente em comunidades criativas online), cresce um movimento que valoriza:

  1. Autoria humana;
  2. Concepção crítica;
  3. Contexto cultural e narrativo;
  4. Expressão perceptível de proposições artísticas e estratégicas.

No Substack Float Vibes, por exemplo, o termo arte pós-IA é usado para descrever trabalhos que usam a IA como ponto de partida, mas não como destino final. Aqui, a máquina não substitui o artista, ela estende o repertório criativo, que é sempre filtrado, revisado e interpretado por um humano.

A reação não é apenas estética, mas política, visual e ética de produção: trata-se de manter significado, raiz e responsabilidade cultural em um ambiente saturado por automatismos.

@deathtostock no Instagram

Pressões reais sobre a prática de design

Relatos de profissionais e notícias do setor deixam claro que o problema vai além da estética:

  • Ritmo insustentável de produção;
  • Desvalorização econômica do trabalho humano;
  • Expectativas corporativas irreais;
  • Falta de estrutura e estratégia nas organizações para lidar com IA.

Segundo reportagem no Meio & Mensagem, apesar do uso crescente de IA em processos de design, muitas empresas ainda não têm estrutura, governança ou estratégia para integrar essas ferramentas de forma ética e produtiva. O resultado? Designers são pressionados a produzir mais, mais rápido e muitas vezes sacrificando profundidade pelo volume.

Outro aspecto crítico é que, quando o conteúdo gerado por IA se torna a norma, a marca corre o risco de perder identidade visual verdadeira. Designers alertam que a “padronização da IA” pode gerar uma estética globalizada, sem raízes ou diferenciação cultural.

Por que marcas e designers estão reagindo

A reação contra o IA slop é tão estratégica quanto estética. Várias razões alimentam essa resistência:

1. Autenticidade que converte

Marcas que investem em autoria humana e curadoria estratégica tendem a gerar maior reconhecimento, confiança e memória de marca do que aquelas que exibem arte visual genérica.

2. Narrativa diferenciada

Arte original carrega intenção. Ela comunica valores, contexto histórico e posicionamento, o que ressoa mais profundamente com públicos exigentes.

3. Percepção de valor

Conteúdos sem autoria tendem a ser percebidos como commodities visuais; por outro lado, peças com intenção estética e conceitual tornam-se ativos de marca, elevando percepção de valor e engajamento.

AP Photo

Como inovar dentro das tendências sem cair no slop

Marcas e designers que desejam tirar proveito da IA, sem comprometer autenticidade, adotam práticas como:

→ IA como co-criadora, não substituta

Usar ferramentas generativas como fontes de estímulo, não como solução final. A fase de conceito, de seleção de ideias e de refinamento sempre passa pela curadoria humana.

→ Prompting estratégico + curadoria crítica

Prompts bem elaborados combinados a critérios de estética, objetivo de marca e discurso editorial fortalecem a identidade visual.

→ Criação de ativos híbridos

Misturar ilustração original, fotografia humana, tipografias proprietárias e gráficos conceituais com outputs de IA para criar ecosistemas visuais únicos.

→ Políticas internas de uso de IA

Definir diretrizes dentro das equipes (como style guides generativos, bancos de prompts curados, bibliotecas visuais exclusivas) garante coerência e propriedade de marca.

→ Adoção de equipes treinadas em estética e semântica

Ter profissionais capazes de interpretar resultados de IA, ajustar e evoluir a linguagem visual com base em estratégia de marca.

Como resultado, confira o case produzido pela equipe da CH para nosso cliente parceiro Tintas Dacar.

O papel do branding na era pós-slop

O anti-slop é um movimento que tem tudo a ver com branding estratégico. Não se trata de rejeitar tecnologia, mas de reintegrar significado, contexto e autoria humana em um ambiente saturado por automação.

O branding da próxima década exigirá que marcas sejam capazes de:

  • Narrar sua voz de forma distintiva;
  • Estruturar experiências visuais que façam sentido para públicos humanos e assistentes de IA;
  • Combinar tecnologia e sensibilidade estética;
  • Proteger e valorizar a autoria criativa em escala.

Integração entre estratégia, estética, curadoria e tecnologia será a nova fronteira do branding.

Veredito: menos volume, mais autenticidade

O futuro do design e do branding não está na maior quantidade de arte produzida, mas na qualidade, significado e propósito por trás de cada peça. O movimento contra o IA slop reflete algo profundo: quando todas as marcas parecem iguais, quem tem voz própria se destaca.

Por aqui na CH, acreditamos que o uso responsável de IA, aliado à curadoria conceitual e à autoria estética, é o caminho para branding sustentável, memorável e verdadeiramente humano. Não se trata de evitar tecnologia, mas de dominar criativamente sua aplicação.